6. GERAL 9.1.13

1. JUSTIA  A UM PASSO DA LIBERDADE
2. ISSO  DESUMANO... ...MAS ISSO  IRREAL
3. CELEBRIDADES  BASTIDORES NEGROS
4. VIDA DIGITAL  ELA EST CHEGANDO
5. GENTE
6. ESPECIAL  SOLUES EXISTEM. BASTA US-LAS
7. COMPORTAMENTO  QUANTO MAIS EXIBIDOS, MELHOR
8. CIDADES  UM LUGAR PARA ENCRENQUEIROS
9. SADE  O PERIGOSO ELOGIO DA GORDURA

1. JUSTIA  A UM PASSO DA LIBERDADE
Por que no Brasil assassinos que sofrem de doena mental incurvel, como Cadu, que matou o cartunista Glauco e seu filho, podem ser soltos depois de trs anos de isolamento.
CAROLINA RANGEL E MARCELO SPERANDIO

     Trs anos depois de cometer um duplo assassinato, ferir um policial numa troca de tiros e tentar fugir do pas, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, hoje com 27 anos, esta prestes a ser posto em liberdade. Em maro de 2010, em meio a um surto psictico agravado pelo consumo de drogas, Cadu, como  conhecido, assassinou o cartunista Glauco Vilas Boas, 53 anos, e o filho dele, Raoni, de 25. Fugiu de carro, chegou a furar um bloqueio da polcia e s foi parado perto da fronteira com o Paraguai. Cadu era usurio de maconha e de ayahuasca, o ch alucingeno consumido pelos adeptos do Santo Daime, seita que ele frequentava e da qual Glauco era um dos lderes. Alm disso, sofre de esquizofrenia, uma doena que altera a percepo da realidade e para a qual at hoje no se conhece a cura. Depois dos crimes, ele ficou nove meses preso. Saiu aps uma junta mdica atestar sua inimputabilidade  Cadu seria incapaz de compreender a gravidade de seus atos e, portanto, no poderia ser julgado. Com isso, ele se livrou de uma pena de pelo menos vinte anos de priso, prevista para condenaes por duplo assassinato, e foi internado em um hospital psiquitrico, onde deveria ficar por um perodo mnimo de trs anos. Esse prazo vence agora.
     Em maro, uma equipe mdica dir se Cadu est apto para voltar ao convvio em sociedade. No Brasil, os mdicos levam em conta basicamente quatro requisitos para liberar um paciente: ausncia de crises de delrio, alucinaes ou abstinncia nos ltimos doze meses; interao com outros pacientes e funcionrios; aceitao da medicao sem resistncia; e boa relao com a famlia. VEJA conversou com integrantes das equipes mdicas que trataram do assassino de Glauco em duas instituies nos ltimos meses. Eles afirmam que Cadu deve passar no teste sem problemas.
     Segundo eles, o jovem est tranquilo, toma em dia seu remdio para a esquizofrenia, a risperidona, e se relaciona bem com as pessoas  chegou, inclusive, a ajudar num programa de alfabetizao de internos. Desde que foi solto, ele ficou a maior parte do tempo no manicmio judicial de Pinhais, prximo a Curitiba, no Paran. Em novembro, porm, foi transferido para uma clnica psiquitrica na capital de Gois, onde passou a ser tratado com doentes mentais que no cometeram crimes. Nesse local, no h celas nem grades.
     A possibilidade de libertao de algum que cometeu um crime to grave h to pouco tempo levanta uma questo: o que garante que Cadu no sofrer uma recada e voltar a matar? Um levantamento de 2011 da UnB com o Ministrio da Justia revelou que um em cada quatro dos cerca de 3000 pacientes psiquitricos internados em manicmios judiciais por praticar crimes estava, pelo menos, em sua segunda internao  isso significa uma taxa de reincidncia de 25% entre os infratores com doenas mentais. Do total de internados, mais de 40% eram esquizofrnicos, como Cadu. E metade deles estava l por homicdio ou tentativa de assassinato.
     Evidentemente, nem todo esquizofrnico  um risco para a sociedade, mas todo portador da doena precisa de acompanhamento intenso e constante. E, quando seu histrico inclui um duplo assassinato, o risco de mant-lo nas ruas  inegavelmente alto, ainda que ele permanea sob monitoramento mdico. Nos Estados Unidos, loucos assassinos costumam passar a vida atrs das grades. Por que no Brasil  diferente? Ao contrrio da lei americana, a brasileira, desde 2001, no leva em conta a gravidade do crime cometido por portadores de distrbios mentais. Nos Estados Unidos, o transtorno psiquitrico serve como um atenuante  transforma em priso perptua a pena de morte, por exemplo, nos estados em que ela existe. Mas as sentenas continuam durssimas. Alm disso, mesmo depois de ficar o tempo mnimo atrs das grades, o preso ter seu pedido de liberdade analisado tambm por uma equipe jurdica  e no apenas por uma junta mdica, como ocorre no Brasil. Para o jurista Luiz Flvio Gomes, Cadu no deve ser liberado. Seria um disparate considerar que a sua periculosidade cessou. Bons modos no significam o controle da doena, afirma.
     Gomes faz uma comparao com o caso de Suzane von Richthofen, que matou os pais em 2002. Ela j cumpriu o tempo necessrio para progredir de regime, mas a Justia no permitiu a ida para o semiaberto por consider-la psicologicamente instvel. Se a Suzane, que no  uma doente mental, teve o pedido de progresso negado por causa da gravidade do que fez,  lgico imaginar que um esquizofrnico usurio de drogas tambm no seja liberado, argumenta.
     Quando Cadu foi transferido do manicmio judicial para a clnica sem grades de Gois, familiares de Glauco acionaram a Justia numa tentativa de reverter a mudana. Agora, diante da notcia de que o assassino poder ser solto, os temores aumentaram. A ex-mulher do cartunista, Beatriz Galvo, disse no fim do ano passado estar em pnico diante dessa possibilidade. Para ela e os demais parentes e amigos de Glauco e Raoni, o fato de Cadu ter puxado o gatilho movido pela loucura, e no por um sentimento de vingana ou desejo de roubar, faz pouca ou nenhuma diferena. A dor da perda  a mesma. No  justo que, alm dela, a famlia tenha de conviver com o pavor de ver a tragdia se repetir.

LOUCOS TAMBM, MAS PRESOS
Mesmo diagnosticados com distrbios psicolgicos, criminosos cumprem longas penas de priso nos EUA.
DAVID CHAPMAN - o assassino de John Lennon foi diagnosticado com esquizofrenia e era viciado em drogas. Foi condenado a, pelo menos, vinte anos de cadeia; desde 2000, a defesa pediu sua liberdade sete vezes. Em todas as ocasies, ela foi negada.
JOHN HINCKLEY JR. - Em 1981, disparou seis vezes contra o ento presidente dos EUA, Ronald Reagan, que ficou com uma bala alojada a poucos centmetros do corao; diagnosticado com doena mental, Hinckley permanece em um hospital psiquitrico
JAMES E. HOLMES - A defesa do jovem que matou doze pessoas numa sesso de Batman em 2012 alega que ele tem uma doena mental para livr-lo da pena de morte; o diagnstico no saiu, mas h uma certeza: ele passar dcadas isolado da sociedade.


2. ISSO  DESUMANO... ...MAS ISSO  IRREAL
Um projeto na Cmara prev celas individuais e fornecimento de creme hidratante para os presos. Para seu autor, d para transformar prises brasileiras em nrdicas por fora da caneta.
KALLEO COURA

     Deputados federais como Domingos Dutra (PT-MA) deveriam fazer melhor uso dos poucos dias da semana  agora, oficialmente trs  em que trabalham em Braslia. Dutra  presidente da Comisso de Direitos Humanos e Minorias e autor de um projeto de lei que prope a criao de um Estatuto Penitencirio Nacional. O projeto inclui o estabelecimento do Dia Nacional do Encarcerado, mas essa  apenas a menor das bobagens que ele contm. Sugere o deputado Dutra, em seu projeto, que todo preso tenha direito a uma cela individual; receba do estado xampu, condicionador e creme hidratante: e seja atendido, em grupos de 400, por doze professores, trs enfermeiros e cinco mdicos, entre eles um psiquiatra e um oftalmologista. Considerando que, em cidades como Anajs, no Par, h apenas um mdico para atender toda a populao de 25.000 habitantes e que, para alojar individualmente todos os presos do pas, seria preciso soltar a maior parte da populao carcerria nacional, o projeto do deputado Dutra seria mais realista se propusesse a extino do crime de uma vez. Ele est agora em uma comisso especial da Cmara. Se for aprovado, segue para a Comisso de Constituio e Justia e, de l, para o Senado. O texto ser analisado, e  claro que aquilo que ele tiver de extravagncia ser retirado, afirma Dutra, sem explicar por que, ento, incluiu as extravagncias.
     O Brasil tem hoje 550.000 presos, a quarta maior populao carcerria do mundo, atrs apenas dos Estados Unidos, da China e da Rssia. Esses detentos ocupam um espao para 309.000 homens. Isso significa que o sistema prisional tem um dficit de 241.000 vagas e que muitos presos passam seus dias amontoados como lixo nas celas. No Complexo Prisional Anbal Bruno, nos arredores do Recife, por exemplo, quase quatro homens ocupam o espao destinado a um. A regra em todo o pas  o rodzio. As turmas se revezam: pessoas dormem em p para que outras possam deitar no pedao de espuma que os prprios presos tm de comprar, diz Elizabeth Sussekind, ex-secretria nacional de Justia. Situaes como essa fazem com que, no Brasil, prises deixem de ser espaos que punem criminosos com a privao de liberdade para virar centros medievais de tortura. E a experincia demonstra que uma das consequncias dessa deformao  o aumento da insegurana para a sociedade.
     Estudos recentes mostraram que a precariedade das condies em que vivem detentos , sim, um fator que influencia diretamente nas taxas de reincidncia no crime. Obviamente, no se trata de oferecer a criminosos condenados os mimos propostos pelo deputado Dutra ou crceres de padro noruegus (a priso da foto, em Halden, na Noruega, tem pista para corrida e casa para abrigar parentes de detentos em visita com pernoite, alm de celas equipadas com TV e frigobar). Bem mais sensato e vivel , por exemplo, acelerar a votao do Cdigo Penal, que acumula poeira nas gavetas do Congresso e que prev, entre outras medidas, a instituio de penas alternativas para quem cometer crimes que no envolvam ameaa  pessoa.  uma forma eficiente de reduzir a superlotao nas penitencirias. Os mutires carcerrios do Conselho Nacional de Justia tambm vm se mostrando teis para essa finalidade. Desde 2001, eles reexaminaram os casos de 415.000 presos e puseram em liberdade quase 36.800 pessoas que no precisavam mais cumprir a pena em regime fechado. Alm disso, em algumas penitencirias, como a Industrial de Joinville, gerida em parceria com a iniciativa privada, esforos para reinserir os presos no mercado de trabalho j ajudaram a baixar as taxas de reincidncia para nveis nrdicos, de 20%. So exemplos de aes possveis e mais produtivas do que projetos de lei que pretendem transformar a realidade  fora de canetadas.


3. CELEBRIDADES  BASTIDORES NEGROS
Um livro mostra que, por trs dos cultos da cientologia, a seita que seduz astros e estrelas de Hollywood, existe um mundo de chantagens e punies para os fiis que no cumprem as ordens dos chefes.
CAROLINA MELO E GUSTAVO SIMON

     O cineasta Paul Haggis tem grande prestgio em Hollywood. J ganhou dois Oscar pelos filmes Crash  No Limite e Menina de Ouro. Haggis  tambm conhecido por uma excentricidade em sua vida pessoal. Durante 34 anos ele foi adepto da cientologia, a estranha seita que prega ideias doidas e promove rituais idem, mas tem a peculiaridade de atrair celebridades de todo tipo. Seus adeptos mais notrios so os atores John Travolta e Tom Cruise. A seita  apontada como piv da separao de Cruise e da atriz Katie Holmes, no ano passado. A revelia de Katie, o ator teria forado a filha do casal, Suri, de 6 anos, a se submeter a rituais doutrinrios. Os relatos de Paul Haggis sobre a cientologia, que largou h trs anos, so o fio condutor de um livro que ser lanado na semana que vem nos Estados Unidos. Chama-se Deixando Claro: Cientologia, Hollywood e a Priso da F e seu autor  Lawrence Wright, vencedor de um Prmio Pulitzer em 2007 por um livro sobre a Al Qaeda.
     O retrato da cientologia que emerge do novo livro de Wright  um filme de terror. A seita exige disciplina frrea de seus membros e quem tenta abandon-la  submetido a chantagens e ameaas. Seu lder mximo, David Miscavige,  acusado de abusar sexualmente das fiis e agredir fisicamente os subordinados. A cientologia foi criada em 1954 por L. Ron Hubbard, um escritor de livros de fico cientfica. Sua doutrina prega que o homem  um ser imortal, com capacidade espiritual ilimitada, mas para usufruir dela precisa se submeter a sesses intensivas de confisso e purgao  oferecidas pela seita ao preo mdico de 750 dlares cada uma. Para efeito de comparao, uma sesso de psicanalise nos Estados Unidos custa entre 150 e 250 dlares. Alis, nunca se fale de psicanlise perto de um seguidor da cientologia  a seita probe qualquer tratamento psicolgico. Haggis calcula ter gastado mais de 500.000 dlares com a cientologia.
     Tom Cruise  protagonista de outra passagem reveladora do livro de Lawrence Wright. Em 2004, depois de dois relacionamentos frustrados  um casamento com Nicole Kidman e um namoro com Penelope Cruz , Cruise comentou com Miscavige, o chefo da seita, que se ressentia de estar solteiro. Iniciou-se uma campanha para encontrar a esposa perfeita para o ator. Dezenas de seguidoras da seita foram entrevistadas e a escolhida foi Nazanin Boniadi, uma atriz iraniana criada em Londres, ento com 25 anos. Nazanin passou por um ms de pregaes dirias intensivas, sofreu chantagens para romper com o namorado e foi obrigada a assinar um contrato de confidencialidade sobre todo o processo. Mesmo assim, ela se apaixonou por Cruise, que se mostrava devotado e envolvido. O namoro entre os dois durou apenas trs meses. Boniadi foi retirada da casa do ator, confinada numa das instalaes da seita e submetida a novas sesses de pregao. Certo dia, no resistiu s presses psicolgicas e abriu o jogo com uma amiga. Sua punio incluiu lavar vasos sanitrios com escovas de dente e cavar fossas no meio da noite.
     John Travolta foi atrado para a cientologia ao receber de presente um volume de Diantica  A cincia Moderna da Sade Mental, o livro de L. Ron Hubbard que contm os princpios da seita. Minha carreira, em grande parte, deslanchou por causa da cientologia, gosta de repetir, alheio ao fato de que o filme A Reconquista, produzido e protagonizado por ele a partir de uma fico cientfica de Hubbard, foi um dos maiores fiascos de pblico e crtica da histria do cinema. Afinal, por que as celebridades se sentem atradas pela cientologia? Em parte, porque elas tm tratamento diferenciado. De olho na boa publicidade que eles representam, a seita mantm pelo mundo uma dzia de Celebrity Centers, instalaes exclusivas para que os astros e estrelas participem dos cultos. Assim, como nos camarins de filmagens e shows, eles no precisam se expor ao assdio de tietes. 


4. VIDA DIGITAL  ELA EST CHEGANDO
Steve Jobs idealizou um aparelho que revolucionasse a televiso tanto quanto o iPhone o fez com a telefonia celular. Uma TV hologrfica pode realizar esse sonho.
ANA LUIZA DALTRO

     Os primeiros aparelhos de televiso conectados  internet surgiram em 2007. A TV 3D, por sua vez, chegou ao mercado em 2010. Mas  consenso entre especialistas que 2013 ser um marco na histria das chamadas Smart TVs, as televises inteligentes que se conectam  internet e interagem com dispositivos mveis como smartphones e tablets. A aposta deles  que esse novo conceito de televiso dever enfim ficar mais claro e mais desejvel aos olhos do consumidor. E isso se deve em grande parte  disposio da Apple de ingressar agressivamente nesse segmento  um objetivo cultivado desde a poca em que Steve Jobs era vivo. A empresa californiana, que revolucionou o mercado de smartphones e de tablets, quer agora repetir o xito no campo das televises inteligentes. O novo conceito deve revolucionar a forma como assistimos  televiso, e no apenas por causa de dispositivos reconhecedores de voz e movimento que tornam a interao com a mquina muito mais intuitiva e que comeam a ganhar escala. A aguardada iTV, ainda em desenvolvimento pela Apple e que ilustra esta reportagem, poder projetar imagens sob a forma de hologramas e ser capaz de exibir simultaneamente quatro telas, permitindo que amigos dentro de uma mesma sala faam atividades diferentes, como assistir a filmes, navegar pela internet ou se divertir com o videogame. At o controle remoto ser uma holografia  sensvel ao toque, naturalmente. Outro modelo em desenvolvimento pela empresa, embora no to inovador, se assemelha a uma TV comum de alta definio, mas integrada  Apple TV (lanada em 2007, a Apple TV  um aparelho que, ligado a uma televiso com conexo  internet, permite assistir a filmes alugados, ouvir msicas do iTunes e exibir fotos armazenadas no iPhone e no iPad). As possibilidades de integrao entre os diversos dispositivos mveis e a televiso e de gerenciamento dessa integrao so praticamente infinitas.  at difcil para ns, hoje, imaginar tudo o que poder ser oferecido, afirma Roberto Grosman, scio da agncia de publicidade F.biz, especializada em internet e tecnologia.
     A despeito da reinveno da forma como assistimos  TV, especialistas afirmam que a Apple precisar finalmente alcanar um acordo abrangente na distribuio de contedo, como filmes e programas de TV. O tamanho do desafio para a empresa fica evidente quando se constata a fora das empresas de TV a cabo, como a americana Comcast e a brasileira Net. O Google TV, alis, no decolou principalmente por causa do boicote que sofreu de redes americanas de televiso a cabo ao fim de uma intensa queda de brao. Diz Grosman: A revoluo feita pela Apple nos mercados de smartphones e tablets se deve em grande parte aos seus aplicativos. Negociar com os desenvolvedores de aplicativos  relativamente fcil, pois eles so muitos e no tm isoladamente um grande poder de negociao. Mas, no mundo da televiso, a coisa funciona de forma totalmente diferente. Ele faz referncia ao fato de que se trata de um mercado concentrado e de grandes players, tanto no caso de produtores de contedo como no caso de empresas responsveis pela transmisso. O poder de barganha deles  muito maior que o de desenvolvedores de aplicativos. A negociao ter de se tornar mais parecida com a que ocorre hoje entre o iTunes e as gravadoras e entre a Amazon e as grandes editoras de livros, afirma o especialista. Em outras palavras, a Apple ser obrigada a ceder mais. Ela ter dificuldades para impor preos baixos demais para pacotes de canais, aqueles negociados de forma avulsa ou programas vendidos sob demanda. Outro desafio para a Apple ser provar que ainda pode lanar produtos revolucionrios, algo que no acontece desde a morte de Steve Jobs, h pouco mais de um ano. Seu sucessor no comando da empresa, Tim Cook, manteve a rotina de lanamentos de aparelhos, como o novo iPad, o iPhone 5 e o mini-iPad. Todos trouxeram evolues relevantes, mas nenhum estabeleceu novos paradigmas.
     A entrada agressiva da Apple no segmento das TVs inteligentes tem razes na crescente competio de mercado: a companhia est ciente de que, se no se estabelecer fortemente no reino das Smart TVs, rivais como o Google (com sua Google TV) certamente o faro. A Samsung  outro gigante que promete novidades. Nesta semana, apresentar no Consumer Electronics Show (CES), a maior feira de produtos eletrnicos do mundo, em Las Vegas, um novo conceito em televiso. A nica imagem j divulgada sugere um formato vertical para a tela (ou que ela possa funcionar dessa forma, alm do tradicional modelo horizontal) ou uma tela translcida, que permite visualizar o que est atrs dela. Mas a favor da Apple est o domnio de mais da metade do mercado mundial de tablets e uma fatia relevante do de smartphones.  um ativo fundamental nessa corrida, uma vez que o contedo acessado pelos consumidores em dispositivos mveis influencia fortemente o que eles veem na tela grande.


5. GENTE
DOLORES OROSCO com Marlia Leoni e Bela Megale

DECOTE DE FECHAR A FESTA
Sair com uma mulher dessas, com um decote desses,  procurar encrenca. Mas no  novidade na vida de NICK LOEB, o milionrio americano que namora a estonteante SOFIA VERGARA. Ele se meteu em briga de boate na passagem do ano em Miami, a atriz colombiana tentou apartar e o tomara que caia dela, nada surpreendentemente, caiu. Saltaram  tona os atributos que Sofia garante serem originais de fbrica, num caso raro nos anais da medicina em que seios continuam a crescer at os 40 anos. No dia seguinte, Loeb, que sonha ser senador pelo Partido Republicano, foi  praia exibindo uns arranhezinhos.

PREPARO FSICO GARANTIDO
O que esperar de um dolo do futebol recm-separado, todo alegre com os quilos perdidos e soltinho no rveillon de Punta del Este? Em lugar da farra fenomenal, RONALDO chegou juntinho com PAULA MORAIS, at agora definida apenas como DJ, e fez programas familiares como uma partida de paintball com o filho adolescente. Sorte de Ronaldo ter perdido aqueles 17 quilos, porque para acompanhar Paula precisa ter disposio, diz um amigo da goiana, prima de criao da atriz Cleo Pires, com quem compartilha o gosto por tatuagens de levantar a torcida. Ela fica at o fim das festas e ainda acorda cedinho para jogar futebol na praia.

BONITO, TATUADO, QUASE LIVRE...
Separar-se amigavelmente de um sogro e patro como Silvio Berlusconi exige um certo jogo de cintura. Mas ALEXANDRE PATO contou com o apoio da namorada, Barbara, filha do ex-primeiro-ministro italiano e dono do Milan. O jogador de 40 milhes de reais, recorde pago pelo Corinthians, j est procurando casa no mais conhecido condomnio nos arredores de So Paulo para amenizar os efeitos da ponte area Milo-Itaquero. Barbara j declarou que a distncia no nos assusta. Como  da diretoria do Milan e est acostumada ao mundo do futebol, ela tambm deve acreditar que o namorado no cair como um patinho nas tentaes fora de campo.

ESTUDANTE-MODELO
Comear a trabalhar aos 14 anos no  incomum entre modelos brasileiras, mas poucas conseguem compensar a perda nos estudos como ANA CLAUDIA MICHELS. Estudava doze horas por dia e, nas aulas de histria, sentia vontade de chorar pelo tanto que deixei de aprender nesses anos todos, conta a catarinense. O cursinho puxado, a concentrao de compromissos de trabalho apenas nos fins de semana e a fora de vontade compensaram: aos 31 anos, ela entrou para a faculdade de medicina. Errou apenas cinco questes no vestibular da paulistana So Camilo. Ganhou um estetoscpio do namorado e trote domstico com ovo e farinha. Meus pais esto eufricos com a primeira doutora da famlia.

COMEOU O REALITY SHOW DA VIDA
Quem anuncia a gravidez, pe um vestido transparente e vai para a balada? KIM KARDASHIAN,  claro. Nos Estados Unidos, ela  a rainha dos programas do tipo reality show: tudo o que Kim e famlia fazem  abertssimo para as cmeras. Desde que comeou a namor-la, o cantor KANYE WEST entrou para a turma do abre-tudo. At o anncio do beb a caminho foi feito em pblico. A criancinha K deve nascer antes de Kim se livrar de uma pedra no Louboutin: o divrcio litigioso do jogador de basquete Kris Humphries, que a acusa de ter forjado um casamento-relmpago para se promover. Uma kalnia.


6. ESPECIAL  SOLUES EXISTEM. BASTA US-LAS
VEJA props a algumas das melhores cabeas do Brasil o desafio de pensar solues radicais e eficientes para acelerar o ritmo de crescimento da economia e coloc-la em outro patamar.
RONALDO FRANA

GUSTAVO FRANCO - Ex-presidente do Banco Central, professor do Departamento de Economia da PUC/RJ e scio-fundador da Rio Bravo Investimentos.
ARMANDO CASTELAR - Coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV e professor do Instituto de Economia da UFRJ. Ph.D. em economia pela Universidade da Califrnia, Berkeley.
ARMNIO FRAGA - Economista e ex-presidente do Banco Central,  scio-fundador da Gvea Investimentos.
SRGIO BESSERMAN - Economista e ecologista,  professor do Departamento de Economia da PUC/RJ.
MARIA HELENA GUIMARES CASTRO - Diretora executiva da Fundao Seade, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais do MEC e ex-secretria de Educao de So Paulo.
EDMAR BACHA  Economista, ex-presidente do BNDES e do IBGE, foi um dos criadores do Plano Real.
JOAQUIM FALCO  Professor da escola de direito da FGV e ex-conselheiro do Conselho nacional de Justia.
ANDR MEDICI  Ex-diretor adjunto de Estatsticas Sociais e Populao do IBGE, foi consultor da Cepal, Unicef e OIT.
JAIRO NICOLAU  Cientista poltico e professor titular da UFRJ. Doutor em cincia poltica pelo Iuperj.
CLAUDIO BEATO  Professor titular do Departamento de Sociologia da UFMG e coordenador do Centro de estudos de Criminalidade e Segurana Pblica.
RAUL VELLOSO - Economista, ex-secretrio de assuntos econmicos do Ministrio do Planejamento e Ph.D. em economia pela Universidade Yale.

     Alm da fortuna de 44 bilhes de dlares, o investidor Warren Buffett, que mora desde 1958 na mesma casa, comprada por 31.000 dlares, e almoa no mesmo restaurante simples, no centro de Omaha, nos Estados Unidos,  famoso por seu bom-senso. Buffett tornou-se bilionrio tambm por ter uma viso clara e simples sobre o funcionamento de coisas complexas. Durante a campanha por sua reeleio, o presidente Barack Obama foi um grande popularizador de um dos claros raios ordenadores que saem da mente sem ornamentos de Warren Buffett. Aonde ia, Obama reafirmava seu apoio  Regra Buffett , segundo a qual nenhum americano rico deveria pagar menos impostos do que sua secretria, proporcionalmente aos ganhos de cada um. Obama refraseou o enunciado dando-lhe um revestimento mais dramtico de palanque: Nenhuma famlia que ganhe mais de 1 milho de dlares por ano deve pagar um porcentual de impostos menor do que paga uma famlia de classe mdia. Por mais enigmticas que sejam, as distores do sistema tributrio tiveram na formulao Buffett-Obama sua mais lmpida e curta definio  aquela que ao fazer o diagnstico do problema fornece tambm sua soluo.
     H algum tempo, Buffett j dera em um outro problema complexo, o do dficit pblico, mais de suas Navalhadas de Occam  expresso derivada do cada dia mais citado e imprescindvel ensinamento do escolstico medieval ingls Guilherme de Occam, segundo quem, entre solues equivalentes para um problema, a mais simples  sempre a melhor. Disse Buffett: Eu sei como eliminar o dficit pblico em cinco minutos. Toda vez que o dficit ultrapassar 3% do produto interno bruto (PIB), todos os integrantes do Congresso ficam impedidos de candidatar-se  reeleio.
     VEJA convidou alguns dos melhores pensadores do Brasil para exercitarem suas afiadas navalhas de Occam sobre problemas nacionais que tm teimado em permanecer como pesos extras, muitas vezes paralisantes, por parecer complexos demais para ser atacados de forma eficiente e imediata. As solues propostas pelos economistas, socilogos, educadores e estudiosos de outros campos do conhecimento ouvidos por VEJA tm todas o poder transformador imediato daquelas formuladas pelo americano Warren Buffett. Alm de serem expoentes acadmicos, os estudiosos ouvidos pela revista j ocuparam posies estratgicas na mquina governamental. Portanto, conhecem as questes em toda a sua complexidade. O conjunto  uma fabulosa contribuio, pois ilumina pontos essenciais para impulsionar o desenvolvimento e diminuir a desigualdade no pas. O franciscano Guilherme de Occam, com toda a certeza, aplaudiria.
     Comecemos por uma dessas navalhadas, dada pelo socilogo Claudio Beato. Ele vai ao cerne da questo da criminalidade urbana ao definir, como faz a medicina chinesa, o sintoma como a doena  quando h queixa, h problema. Aplicada ao combate do crime, a proposio de Beato  que as autoridades passem a monitorar, alm dos indicadores objetivos de assassinatos e roubos, o sentimento de insegurana das pessoas. Um medmetro parece abstrao acadmica? No . Passar a medir tambm o grau de medo das pessoas em relao ao crime modifica tambm a maneira como o delito  combatido pela polcia. Diz Beato: Haveria uma reorientao do trabalho policial. Em vez de combater o crime como quem vai para uma guerra, em que vale tudo, as polcias seriam valorizadas por priorizar a integridade fsica e a tranquilidade dos cidados.
     A navalhada de Joaquim Falco, professor da Escola de Direito da Fundao Getulio Vargas, tem outro alvo: a corrupo. Seu enunciado: Os governos sero obrigados a pagar em dia. Parece uma medida incua. Mas quando destrinchada ela revela seu poder. Como se sabe, os governos maus pagadores abrem o flanco para todo tipo de venda de facilidades dentro da mquina pblica emitindo os famosos precatrios para rolar a dvida. Os credores, ento, se atropelam para receber  o que pode levar muitos anos em alguns casos. Entram em cena os funcionrios dispostos a ajudar em troca de propina, e a corrupo abre um sorriso de orelha a orelha. Outro subproduto devastador do fato de os governos atrasarem seus pagamentos: os prestadores de servio embutem esses atrasos nos preos e as obras passam custar 30%, 40% e at 50% mais. Obrigar os governos a pagar em dia, portanto, derrubaria todo esse esquema nocivo. De uma navalhada s. Falco calcula que, se os governos de todos os nveis fossem obrigados a saldar seus precatrios, cerca de 92 bilhes de reais seriam injetados na economia brasileira, um estmulo monetrio capaz, sozinho, de acrescentar alguns pontos na taxa de crescimento do PIB.  um resultado grandioso para uma ao to simples: governos que pagam em dia.
     Talvez o melhor exemplo de problema considerado insolvel no Brasil seja o dficit da Previdncia Social, uma bomba-relgio de 94 bilhes de reais programada para explodir daqui a algumas dcadas e ceifar as chances de milhes de indivduos das novas geraes de ter a aposentadoria assegurada na velhice.
     O economista Srgio Besserman formula um elegante Gedankenexperiment, expresso alem que define um raciocnio lgico fcil de acompanhar: Uma pessoa sabe que precisa emagrecer. Ela confirma essa necessidade olhando-se todos os dias no espelho  durante dcadas. Mesmo assim nunca encontra foras para decidir fazer dieta. Imagine agora a dificuldade de convencer no um indivduo mas toda uma coletividade da necessidade de agir sobre um problema, o dficit da Previdncia, que as pessoas nem conseguem enxergar.
     To ou mais complexa do que o problema do dficit da Previdncia era a fbrica de inflao que existia no Brasil antes do Plano Real  cada estado gastava quanto queria e financiava seu prprio dficit em um processo ardiloso feito pelos bancos estaduais estatais, que equivalia ao poder de emitir moeda. A navalhada veio com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), promulgada em maio de 2000, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, como parte das reformas estruturais que se seguiram ao Plano Real. A lei conseguiu impedir que governadores e prefeitos gastem mais do que arrecadam. Tambm impe limites aos poderes Judicirio e Legislativo dos estados.
     Parecia impossvel de ser aplicada. Mas a LRF pegou e foi fundamental na reduo do dficit pblico e da dvida pblica, como reconheceu posteriormente o prprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, como todo o PT, crtico inicial do plano.
     Outra soluo radical e simples para um problema que parecia inaplicvel no Brasil acaba de ser desfechada com sucesso:  a Lei da Ficha Limpa, segundo a qual polticos com problemas no resolvidos com a Justia no podem se candidatar por oito anos. O mesmo vale para quem tiver o mandato cassado, ainda que renuncie antes, para tentar escapar da degola. Ela foi aprovada para estas eleies depois de quinze anos de discusses e manobras de postergao. O que fez com que a lei finalmente sasse do papel para limpar as urnas foi o manifesto popular com 1,3 milho de assinaturas que circulou pela internet, nas redes sociais. A capacidade de presso da internet sobre governos  uma fora de mobilizao transformadora cuja eficincia vem sendo testada com sucesso em todas as partes do mundo  da Primavera rabe no Oriente Mdio aos protestos contra a recesso e o desemprego na Europa.
     As implicaes do surgimento da internet se somam aos impactos de outro fenmeno de massa recente: a ascenso vigorosa da classe mdia, que fez com que uma massa de 40 milhes de brasileiros passasse a conhecer novas possibilidades, incluindo seus direitos como cidados. Com a experincia de quem j implementou dois planos econmicos   o decano entre os fundadores do Plano Real , o economista Edmar Bacha alerta para as consequncias  benficas, ressalte-se  desse movimento de ascenso de uma larga parcela da populao a um novo patamar. As ambies e os interesses dessa parcela da sociedade sero fatores decisivos nas mudanas e na implementao de novas leis, afirma. Bacha acredita que o marco da primeira manifestao desse grupo foi o fim da contribuio provisria sobre movimentaes financeiras (CPMF). Foi essa manifestao, ainda que incipiente naquele momento, que definiu o jogo em favor do fim da CPMF. Outras viro. O governo ser obrigado a repensar muitas politicas pblicas que hoje beneficiam principalmente os mais ricos, diz Bacha.
     Um claro exemplo de privilgio que tende  obsolescncia em futuro prximo  revelado na proposta do economista Andr Medici, que aponta uma grave distoro nas contas do Sistema nico de Sade. Criado com um bom propsito  garantir o acesso universal dos brasileiros aos servios de sade , o sistema foi distorcido. A classe mdia mais abastada, que pode pagar plano de sade e consultas particulares, busca os recursos do SUS toda vez que o tratamento no  coberto pelo plano, atravs de aes judiciais. Os recursos utilizados para pagar essa conta, que supera hoje os 8 bilhes de reais por ano, fazem falta no atendimento bsico, utilizado pela grande maioria da populao mais pobre. A contribuio de todos os brasileiros ajuda a pagar um sistema que, no fundo, beneficia mais uns do que outros. Mudar essa situao  o dilema dos governantes. Como alertou o filsofo ingls John Stuart Mill em seu clssico Sobre a Liberdade, magnfica obra fundadora das teses do liberalismo: Uma das questes mais difceis e complicadas da arte de governar  determinar o ponto em que comeam os males (...) da aplicao coletiva da fora da sociedade (...) para a remoo dos obstculos que esto no caminho do seu bem-estar.

1- FAZER MAIS COM MENOS
Toda a atividade governamental ter de provar ter custo menor do que o benefcio social proporcionado. Edmar Bacha
Que problema resolveria - O gasto social do governo brasileiro  de 20% do produto interno bruto (PIB). Mas qual  a medida do benefcio que esse gasto proporciona? Ningum sabe. Ningum mediu. Quando no se mede algo, qualquer afirmao sobre seus resultados  um exerccio de adivinhao. Bacha sustenta que, se o governo passar a aferir com rigor seus resultados, suas aes tendero automaticamente a ser mais efetivas  e a custar muito menos para o bolso dos pagadores de impostos. Ele lembra que Austrlia e Inglaterra conseguiram reduzir drasticamente seus custos sociais e aumentar sua eficincia depois de introduzir mecanismos de avaliao a partir da dcada de 80.  hora de o Brasil fazer o mesmo.
Efeito positivo imediato - Com a aferio de resultados, os 11% do PIB que a Previdncia Social leva anualmente seriam mais do que suficientes para cumprir seu papel. S com a Previdncia, o Brasil economizaria de imediato cerca de 3,5% do PIB.
Quem  contra - Os suspeitos de sempre. Primeiro, os burocratas cuja carreira independe do desempenho e que abominam a ideia de ser avaliados segundo um parmetro absolutamente tcnico. Os muitos polticos que gastam nosso dinheiro de acordo com seus interesses eleitorais, e no com os do Brasil.
Como convencer os incrdulos - Encomendar ao Banco Mundial um estudo que mostre os ganhos comparativos obtidos por pases que adotaram mtodos objetivos de avaliao de gastos sociais. Contra dados no h argumentos.

2- GASTOS SOCIAIS PARA QUEM PRECISA
Fica entendido que so bsicos os direitos  Previdncia, sade e educao garantidos pela Constituio. Quem quiser luxo e tratamentos complexos dever recorrer a seguradoras privadas. Edmar Bacha
Que problema resolveria - Conserta-se imediatamente a lenta e segura distoro do preceito constitucional que fez dos servios pblicos brasileiros de educao, sade e previdncia privilgios das camadas mais ricas da populao. Um exemplo: quem tem mais dinheiro consegue colocar seus filhos em melhores escolas privadas e garantir-lhes universidades gratuitas. Outro: com dinheiro  possvel contratar advogados e obrigar na Justia que o governo pague tratamentos mdicos caros, ainda em estgio experimental, sem resultado positivo cientificamente comprovado.
Efeitos positivos imediatos - Invertem-se imediatamente realidades perversas como esta, registrada no campo da sade pblica: mais de 13% dos clientes de servios mdicos pblicos pagam os prprios planos privados de sade  enquanto 30% das pessoas com renda menor do que um quarto de salrio mnimo mensal no tm acesso aos servios mdicos pblicos e gratuitos.
Quem  contra - Todos os atuais privilegiados beneficirios dos direitos nascidos da interpretao distorcida do preceito constitucional da universalidade dos servios pblicos.
Como convencer os incrdulos - Quando o beneficirio tiver de pagar do prprio bolso por luxo ou privilgios, as universidades pblicas, os servios de sade e a Previdncia consumiro muito menos recursos.  possvel demonstrar isso por meio de estudos independentes, abrangentes, irrefutveis, com quadros comparativos internacionais, que podem ser encomendados ao Banco Mundial.

3- MENOS CORRUPO
Ficam proibidas as doaes de empresas a candidatos e partidos. As doaes de pessoas fsicas no podem exceder de 15.000 reais. Jairo Nicolau
Que problema resolveria - As doaes legais e ilegais pelas empresas esto na raiz dos dois maiores escndalos eleitorais do Brasil (o impeachment de Fernando Collor e o escndalo do mensalo so dois exemplos). A adoo de uma legislao eleitoral mais simples, baseada na francesa, com proibio de doao de empresas, definio de um limite de gastos e punies severas, reduziria os custos de campanha e diminuiria o apetite dos candidatos por mais e mais recursos  o que os deixa refns dos doadores depois de eleitos.
Efeito positivo imediato - Nas eleies municipais de 2008, os candidatos declararam ter gastado cerca de 2,8 bilhes de reais, mas no  possvel estimar os valores no declarados. Com a nova lei, as campanhas ficariam mais baratas, mais equilibradas. O caixa dois diminuiria, caso se estabelecessem mecanismos eficientes de controle e fossem adotadas punies mais severas.

Deixam de existir as emendas parlamentares individuais sobre o Oramento. Srgio Besserman
Que problema resolveria - Acabaria de vez a resistente praga de usar dinheiro do contribuinte brasileiro para atender aos interesses locais dos deputados federais. Essa prtica clientelista em geral se resume a dar a prefeitos dinheiro sem fiscalizao para a execuo de projetos inteis e hiperfaturados.
Efeitos positivos imediatos - A farra das emendas custa hoje 21 bilhes de reais por ano. Esses recursos passariam a ser canalizados para projetos nacionais prioritrios e escolhidos com base em critrios transparentes.
Quem  contra - Os deputados, prefeitos e toda a clientela desse dinheiro.
Como convencer os incrdulos - Encomendar a uma auditoria ou um grupo delas um relatrio tecnicamente irrefutvel sobre o retorno econmico e social das emendas nos ltimos vinte anos. A ineficcia do modelo ficaria to bvia que sua exposio ao pblico na internet seria uma arma eficaz para enterrar a atual prtica clientelista.

4- PIBO
A tarifa mxima de importao ser de 10%, e fica proibida a exigncia de contedo nacional nos financiamentos do BNDES e nas compras governamentais. Edmar Bacha
Que problema resolveria - Traria um aumento exponencial na taxa de produtividade, o nico motor testado e capaz de garantir o crescimento sustentado e no inflacionrio das economias. O Brasil tem uma das economias mais fechadas do mundo. Apresenta o menor coeficiente de importao (indicador que mede o valor das importaes no consumo da indstria) entre os pases membros da Organizao Mundial do Comrcio (OMC), amargando um 155 lugar. Sem se exporem  concorrncia internacional e sem se integrarem s cadeias produtivas internacionais, a indstria e as empresas brasileiras em geral no ganharo produtividade, sero ineficientes e s existiro sob o protecionismo. 
Efeitos positivos imediatos   tambm atravs da importao que se introduz, na economia, o desenvolvimento tecnolgico. O melhor exemplo  a Embraer, modelo empresarial bem-sucedido, que importa 70% das peas de um avio. Seus jatos, equipados com motores Rolls-Royce ingleses, competem em condies de igualdade com os melhores fabricantes mundiais.
Quem  contra - Os setores industriais beneficirios da proteo contra as importaes e os burocratas que derivam seu prestgio junto aos empresrios do poder de determinar essa proteo.
Como convencer os incrdulos - Lembrar o exemplo mais dramtico e definitivo dos ganhos sociais de abrir a economia: a China.

5- MAIS DINHEIRO NO BOLSO
 direito individual de cada trabalhador decidir como aplicar sua poupana. Gustavo Franco
Que problema resolveria - A atual legislao tira do trabalhador o direito de decidir sobre sua poupana e lhe d remunerao menor do que a mdia de mercado. O rendimento de 3% ao ano mais TR  muito inferior ao que o trabalhador obteria investindo em um fundo DI, que pode render 7,2% ao ano. O FGTS deixaria de ser um imposto disfarado, cobrado compulsoriamente e usado para pagar despesas governamentais  tais como os investimentos em habitao  e se tornaria um efetivo mecanismo de poupana, previdncia e segurana do trabalhador. A poupana dos trabalhadores deixaria de abastecer o BNDES, que financia setores que do baixssima contribuio para o desenvolvimento da economia brasileira.
Efeitos positivos imediatos - Maior flexibilidade e capacidade de investimento da economia brasileira.
Quem  contra - Os escolhidos pelo governo para receber recursos subsidiados custeados pela baixa remunerao da poupana dos trabalhadores.
Como convencer os incrdulos - So abundantes e convincentes os exemplos de adoo desse modelo em pases que resolveram o problema da penso dos trabalhadores dando a eles o direito de decidir sobre ela.

6- A FORA DOS CONTRATOS
Os contratos de trabalho passam a ser de natureza civil e inteiramente negociveis entre as partes  com exceo dos casos em que o salrio do trabalhador estiver na faixa de iseno do imposto de renda. Gustavo Franco
Que problema resolveria - Os encargos sociais que incidem sobre a folha de pagamento dobram o valor dos salrios e se tornam um peso para as empresas, sem que isso reverta em benefcio do trabalhador. O FGTS  uma contribuio compulsria cujo rendimento anual, de TR mais 3% ao ano,  inferior  inflao e s piores aplicaes financeiras do mercado.
Efeitos positivos imediatos - A livre negociao dos contratos de trabalho daria maiores ganhos aos trabalhadores e novas possibilidades de reduo no peso da folha de pagamento para as empresas. Outras formas de proteo ao emprego poderiam ser utilizadas. Por exemplo, aplices de seguro privadas ou a garantia dada por fundos pblicos especficos para esse fim. s empresas o novo modelo seria muito adequado, no por poderem demitir trabalhadores sem maiores custos, como se pensa, mas por poderem remunerar muito melhor os funcionrios imprescindveis.
Quem  contra - As centrais sindicais, a mquina da Justia do Trabalho, a parte da burocracia estatal que vive do uso dos recursos do FAT e do FGTS e um grande nmero de trabalhadores que no conseguem enxergar os benefcios da livre negociao.
Como convencer os incrdulos - Com a mobilizao das empresas, que podem demonstrar na prtica que o valor dos contratos negociados livremente  maior e gera mais responsabilidades mtuas do que toda a parafernlia de sindicatos, Justia do Trabalho e burocracia estatal.

7- PODER PARA A PRXIMA GERAO
Toda me ter direito a votar em cada eleio tantas vezes quantos forem seus filhos menores de 16 anos. Armnio Fraga
Que problema resolveria - As reformas vitais para o estado, como a da Previdncia, padecem de uma crnica impopularidade porque, caso aprovadas, limitariam os benefcios das geraes atuais em favor da estabilidade para as geraes futuras. Parte das dificuldades de tomar decises cujos resultados viro a longo prazo ocorre simplesmente porque os eleitores mais velhos tendem a pensar em solues que os beneficiem. Uma me de muitos filhos menores  bem mais capaz de votar pensando no bem-estar das geraes futuras, mesmo que seja obrigada a sacrificar agora a prpria comodidade.
Efeitos positivos imediatos - Ao votarem levando em conta o interesse de seus filhos e netos, as mes vo ajudar a eleger polticos com viso responsvel do futuro. A lgica vale tanto para a Previdncia quanto para as leis de preservao ambiental ou de investimentos.
Quem  contra - Os polticos que s pensam na prxima eleio e nunca na prxima gerao.
Como convencer os incrdulos - Obter uma maioria que se preocupe com o longo prazo basta.

8- ESCOLAS QUE ENSINAM
O diretor de escola monta a prpria equipe. Se o desempenho dos alunos nas avaliaes no atingir as metas, o diretor ser afastado e substitudo por um vice-diretor de escola da mesma regio que atingiu ou superou as metas. Maria Helena Guimares Castro
Que problema resolveria - A baixa qualidade do ensino  um problema persistente com o qual o Brasil ainda no sabe lidar. O pas ocupa a 54 posio no Programa Internacional de Avaliao de Estudantes (Pisa). A mais recente edio da Prova Brasil, divulgada agora, mostra que o conhecimento dos alunos de nvel mdio nas escolas pblicas  menor do que o dos alunos do ltimo ano do ensino fundamental das escolas privadas. Melhorar a qualidade e a equidade do sistema educacional  o grande desafio do pas.
Efeitos positivos imediatos - A avaliao dos diretores impede a acomodao e estimula os bons profissionais a buscar seu espao, tornando as redes de ensino mais efetivas. Nos pases que se destacam no Pisa, como Finlndia e Canad, os diretores tm autonomia para nomear suas equipes e respondem pelo desempenho de suas unidades.
Quem  contra - Os sindicatos e os profissionais de educao em situao de conforto com a falta de avaliao de metas objetivas.
Como convencer os incrdulos - A adoo de polticas arrojadas de premiao aos melhores e a garantia de condies adequadas de funcionamento das escolas fixariam nas pessoas o conceito do mrito como forma de ser promovido na carreira.

9- JUSTIA RPIDA
Todo processo tem de ser concludo em, no mximo, trs anos. A promoo de magistrados depender da regularidade no cumprimento desse prazo. Armando Castelar
Que problema resolveria - No Brasil, o tempo mdio de emisso de sentena para um processo civil era de mais de cinco anos em 2008. H estados em que o tempo mdio passa de dez anos. Nas causas contra o setor pblico, a situao  ainda pior, devido  dificuldade de receber os precatrios: ganha-se, mas no se leva. Entre os exemplos, esto as causas contra o INSS que duram mais de vinte anos.
Efeitos positivos imediatos - Hoje, a culpa da morosidade  de todos, mas no  de ningum em especial. A responsabilizao de magistrados e dos altos funcionrios da Justia vai estimular quem mais tem condio de fazer algo a respeito a buscar uma soluo, mesmo quando eles no forem os responsveis diretos pelo problema.
Quem  contra - Os Tesouros municipal, estadual e federal, que no do o dinheiro para pagar esses compromissos, e setores mais corporativistas da magistratura, que costumam se opor a todas as aes que impliquem avaliaes mais rigorosas de desempenho.
Como convencer os incrdulos - Com a adoo de metas de desempenho, a publicao frequente de indicadores, o tratamento da questo de forma impessoal, o reconhecimento e a premiao dos juzes que mais avanarem na reduo da morosidade.

10- SADE DE QUALIDADE
Os sistemas pblico e privado de sade obedecero s mesmas regras e vo competir por pacientes. Andr Medici
Que problema resolveria - A fronteira que separa atualmente os setores de sade pblico e privado  ilusria. Muitos dos recursos pblicos para a rea de sade acabam sendo utilizados para complementar os custos de exames e tratamentos que deveriam estar sendo integralmente pagos pelos planos de sade contratados pelos pacientes privados. Reconhecer essa iluso e submeter os dois regimes, o pblico e o privado, a regras nicas traria imediata transparncia a respeito da origem dos recursos para a sade e tambm sobre quem est realmente sendo beneficiado pelo dinheiro pblico.
Efeitos positivos imediatos - Abriria mesmo aos mais pobres a opo de contratar planos privados de sade, cujos preos seriam subsidiados para quem, efetivamente, no pode pagar. Assim os mais pobres entrariam no sistema privado em igualdade de condies com os que podem pagar. O efeito positivo mais notvel viria do fato de que haveria uma saudvel competio por pacientes entre o sistema pblico de sade e os planos privados. Aliando-se isso ao fato de que o poder de deciso ficaria nas mos dos pacientes, mesmo os mais pobres,  fcil a concluso de que haveria uma melhora dos servios oferecidos tanto do lado estatal quanto do privado.
Quem  contra  Os defensores mais radicais do SUS, que defendem a tese de que o sistema de sade no Brasil tem de ser integralmente estatal e, em consequncia, sem regras de controle sobre a qualidade do trabalho mdico. Alguns planos de sade menos inovadores e, claro, usurios de planos de sade temerosos de perda na qualidade assistencial a que tm acesso hoje.
Como convencer os incrdulos - No seria difcil convencer a grande maioria, dado que a possibilidade de ampliar a livre escolha para os que hoje s tm o SUS seria claramente uma vantagem. Os atuais usurios de planos de sade teriam de se convencer de que a mudana no traria perda alguma de qualidade  basta ver a excelncia do atendimento mdico oferecido hoje por bons hospitais universitrios, especialmente os de So Paulo.

11- INFRAESTRUTURA MODERNA
O volume de investimento anual do governo em transporte no pode baixar de 1,4% do PIB. Os membros do Congresso e do Executivo com poder sobre o setor no ano em que o ndice cair abaixo de 1,4% do PIB ficam inelegveis por quatro anos. Raul Velloso
Que problema resolveria - Daria um gs no crescimento do PIB. A poupana pblica  negativa. Leia-se: o governo no tem dinheiro para investir na melhora da infraestrutura do pas. A atrao de investimentos de longo prazo para construir estradas, portos e aeroportos tem sido desestimulada pela desvalorizao da taxa de cmbio, medida protecionista para a indstria brasileira. Com uma regra forte como a proposta, obrigando o governo a investir, ele teria de cortar gastos de custeio para liberar recursos produtivos. S isso j seria um grande passo na direo correta.
Efeitos positivos imediatos - O investimento em transportes  vital para destravar o gargalo da infraestrutura. O governo investe hoje somente um tero do que investia nos anos 70, em proporo ao PIB. Caso investisse o mesmo que os pases de renda mdia semelhante  brasileira, o impacto seria to positivo que o PIB da Amrica Latina inteira aumentaria 2 pontos porcentuais por ano.
Quem  contra - O prprio governo, que no vai gostar de ter uma espada sobre a cabea num assunto em que ele vem mostrando muita dificuldade para comandar, e o Congresso, que no se sente responsvel por esse fracasso, embora seja.
Como convencer os incrdulos - Uma maneira de diminuir a resistncia no Congresso seria estabelecer, em um primeiro momento, uma regra que impusesse a perda de mandato aos membros da Comisso de Oramento. Assim, esses parlamentares, que tm responsabilidade direta em liberar verbas para o investimento em infraestrutura, seriam os maiores interessados em produzir resultados positivos para o Brasil.


7. COMPORTAMENTO  QUANTO MAIS EXIBIDOS, MELHOR
Os adeptos do funk ostentao celebram o acesso recm-adquirido aos produtos de consumo caros com shows nos quais se cobrem de joias e videoclipes com carres  e fazem sucesso na internet.
FERNANDA ALLEGRETTI

     Em um espao de festas no bairro do Tatuap, na Zona Leste de So Paulo, dois automveis BMW esto estrategicamente estacionados sob luzes de LED que piscam ora verdes, ora vermelhas. No camarim improvisado, duas danarinas, uma loira e outra morena, se maquiam. Elas vestem short curto, legging justa e top que deixa a barriga  mostra. J  fim de tarde quando o diretor Konrad Dantas anuncia no megafone o incio das gravaes do vieoclipe: Vamos comear! Danado, cad voc?. De uma sala anexa, surge o cantor de funk MC Danado usando bon com estampa de diamante, uma vistosa corrente com seu nome artstico gravado e meia dzia de anis. Junto aos carros, ele comea a danar ao som de seu novo hit. T Daquele Jeito: Dana no baile s de rea vip / Olha o style, conjunto de grife / Sempre na moda, s quem  invade / Hollister, Armani, Brooksfield, Ralph Lauren.... O paulistano Andr Moura, o MC Danado, de 31 anos,  um dos principais intrpretes de uma nova corrente de msica cujo nome no deixa dvidas quanto ao contedo das letras: o funk ostentao. Os versos empilham aleatoriamente uma srie de marcas de luxo, enquanto os videoclipes mostram carres, motos, mulheres e bebidas  tudo com muito brilho, tudo em exagero.
     Como corrente musical, o funk ostentao no difere dos outros tipos de funk, mas sua mensagem est a anos-luz daquela apregoada por esse gnero no passado. Enquanto o funk da periferia dos anos 80 fazia cara feia e desafiava os valores das classes mdia e alta, o funkeiro da nova corrente vai na direo oposta e canta o desejo pelo que o mercado chama de marcas premium. Essa atitude pode ser considerada como um termmetro da autoestima da nova classe mdia  mesmo que s vezes os intrpretes escorreguem na pronncia ao citar marcas importadas e cometam gafes como acomodar garrafas de usque em baldes de gelo. As msicas so como um grito de liberdade, compara Konrad Dantas, o KondZilla, que j dirigiu mais de cinquenta videoclipes de funk ostentao. Queremos mostrar que a classe C pode andar de carro bom sem ser bandido.
     Os intrpretes de funk ostentao raramente gravam CDs. A divulgao das msicas  feita pelo YouTube  dos dez vdeos mais acessados no site no Brasil em 2012, quatro so do gnero. Como tudo o que aparece no YouTube, o bom xito  mensurado pelo nmero de acessos. Com o refro Contando os plaque (cdulas de dinheiro) de 100 dentro de um Citron / A nis convida porque sabe que elas vm, o paulista Guilherme Aparecido Dantas, o MC Guim, de 20 anos, teve mais de 19 milhes de visualizaes.
     O sucesso do funk ostentao permite que os cantores levem o estilo de vida que exaltam em suas msicas. MC Guim cresceu em Osasco, na Grande So Paulo, e foi abandonado pela me quando tinha 1 ano e meio. Sua sorte comeou a mudar em 2010, quando gravou a msica T Patro. Hoje, Guim faz cinquenta shows por ms e chega a cobrar 10.000 por apresentao. Suas ltimas aquisies foram um Volvo XC 60 e um apartamento de dois quartos no bairro paulistano do Tatuap.
     No  mera coincidncia que a esttica dessa nova vertente do funk nacional se assemelhe  de muitos rappers americanos. A inspirao para as letras e os videoclipes brasileiros vem do movimento rapper que a partir do incio dos anos 2000 ficou conhecido como bling, em referncia ao chacoalhar de joias e acessrios usados por seus intrpretes de forma ostensiva e exagerada. Assim como o rap  a trilha sonora dos negros americanos, o funk ostentao  a caricatura sonora das aspiraes de brasileiros que j ascenderam em relao  gerao anterior e agora querem mais.
     A carioca Viviane Arajo, que adotou o nome artstico de MC Pocahontas, tem 18 anos e h dois segue a carreira de funkeira. Filha de um segurana e de uma cabeleireira, chega a faturar 30.000 reais por ms com suas apresentaes. Ela continua a morar em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.  l que esto minha famlia e meus amigos mais queridos, ela diz. H trs semanas, antes de se apresentar em uma casa noturna num bairro nobre de Goinia, Pocahontas gastou 2000 reais em roupas, brincos e culos novos num shopping de Braslia. Para animar o pblico, comeou o show com um de seus hits de ostentao, Mulher do Poder: Chapadona de Chandon / Gosto de gastar, isso no  novidade / Hoje eu j torrei mais de 10.000 com a minha vaidade. A plateia foi ao delrio. 

CURTIR FUNK OSTENTAO ...
Para eles
 Chegar a bares e baladas num carro recheado de belas mulheres 
 Consumir vodca Grey Goose e usque Red Label
 Usar tnis da Nike ou da Mizuno (modelo Wave Prophecy)
 Andar de moto modelos RR ou Hornet, ambos da Honda, e XT, da Yamaha

Para elas
 Ter pelo menos um bolsa Louis Vuitton
 Usar unhas compridas decoradas com desenho de caveira ou estampas xadrez
 Tomar espumante Chandon
 Exibir sapatos de salto alto da marca Carmen Steffens

Para ambos
 Usar joias e bijuterias pesadas
 Andar portando o kit, ou seja, usar as marcas da moda
 Andar de Chevrolet Camaro
 Ter celular Samsung Galaxy, iPhone ou Nextel
 Ter pelo menos um par de culos das marcas Evoke, Absurda ou Oakley


8. CIDADES  UM LUGAR PARA ENCRENQUEIROS
Em Amsterd, valentes ameaadores e agressores potenciais sero compulsoriamente transferidos para alojamentos em reas vigiadas, de onde s podero sair com autorizao.

     Nenhuma sociedade avanada tem dvidas sobre o que fazer com o cidado que agride ou mata algum. O destino dele  a cadeia. No entanto, como lidar com indivduos que nunca cometeram crimes violentos mas que todo o tempo do sinais de que esto prestes a faz-lo? Valentes que vivem ameaando seus vizinhos, por exemplo, ou insultadores contumazes de homossexuais? Prend-los preventivamente  uma impossibilidade e uma injustia. Permitir que fiquem  vontade, porm,  deixar desprotegidas pessoas que tm bons motivos para se sentir em risco. A prefeitura de Amsterd, na Holanda, optou por no esperar de braos cruzados que os crimes aconteam.
     A partir deste ms, as autoridades identificaro cidados que intimidam outros de forma sistemtica. Eles sero compulsoriamente transferidos de sua casa para alojamentos instalados na periferia da cidade. Dez contineres j esto reservados para servir de lar aos encrenqueiros. Eles no ficaro detidos, mas s podero circular em uma rea controlada do bairro, sob vigilncia constante da polcia. Por seis meses, no mnimo, recebero atendimento de psiclogos e assistentes sociais para identificar as causas do seu comportamento agressivo e tentar um tratamento. S voltaro para casa com a aprovao desses profissionais. Cada continer tem 24 metros quadrados e est equipado com geladeira, fogo e televiso. gua, luz e alimentao tambm sero fornecidas pela prefeitura. Com a medida, o prefeito Eberhard van der Laan espera resolver pelo menos os casos mais graves entre as 13.000 denncias de comportamento antissocial recebidas todos os anos pela prefeitura.
     O projeto no  uma unanimidade entre os holandeses. Seus crticos apelidaram as reas que abrigam os contineres de guetos da escria, numa aluso  achincalhadssima proposta de colocar todo o lixo junto e deixar as pessoas normais em paz, feita em 2011 por Geert Wilders, poltico de extrema direita. Amsterd  prdiga no pioneirismo dos mtodos  nem sempre bem- sucedidos  usados para lidar com problemas sociais. O isolamento de encrenqueiros  uma experincia ousada, mas que desde j tem o mrito de tocar numa questo nevrlgica para as sociedades: como lidar com os indivduos incmodos com que se tem de conviver.
TATIANA GIANINI


9. SADE  O PERIGOSO ELOGIO DA GORDURA
Estudo revela que as pessoas com sobrepeso tm menos risco de morrer. A fraqueza dessa concluso: no h notcia de nenhum centenrio com quilos em excesso.
NATALIA CUMINALE

     Houve um tempo, muito antes do atual imprio da magreza, no qual ostentar dobrinhas em profuso era indcio de fertilidade  e, portanto, de sade e beleza. As telas de Rubens e Rembrandt, no sculo XVII, e as de Renoir, no sculo XIX, so retratos histricos desse perodo que associava os quilos sobressalentes ao nimo dos seres humanos. Rubens, em especial, adorava ter como modelos mulheres rechonchudas, uma delas sua prpria companheira, figuras inspiradoras de telas como Vnus em Frente ao Espelho, de 1614 ou 1615, marco de um gosto no avesso do atual padro. No havia, contudo, cincia que confirmasse o aspecto saudvel de corpos rolios. Hoje h, ainda que caiba ressaltar a colossal diferena de hbitos alimentares a separar os sculos.
     Um minucioso levantamento publicado na semana passada pela revista The Journal of the American Medical Association (Jama) revelou que os gordinhos  as pessoas com sobrepeso, na definio mais precisa  tm um risco de morte 6% menor em relao queles com peso normal. Ou seja, os quilos extras seriam responsveis por um discreto benefcio em comparao com os que tm anatomia esbelta. Coordenado pela pesquisadora Katherine Flegal, do Centro de Controle e Preveno de Doenas dos Estados Unidos (CDC), o estudo foi resultado da compilao e anlise de 97 trabalhos cientficos amplamente difundidos. Analisaram-se o ndice de massa corporal (IMC) e sua relao com a taxa de mortalidade de quase 3 milhes de pessoas. A pesquisa reforou ainda o recorrente alerta para os obesos: eles tm risco 18% maior de morrer.
     Em um editorial publicado tambm no Jama, Steven Heymsfield e William Cefalu, do Centro de Pesquisas Biomdicas de Pennington, em Louisiana, afirmaram que pequenos excessos de tecido adiposo poderiam fornecer reservas de energia para certas doenas. No caso de uma pneumonia, por exemplo, que pressupe a perda de peso, ter quilos a mais como lastro poderia ser til. Os benefcios apontados, fartamente ancorados na estatstica, no convenceram a comunidade cientfica  e deu-se uma avalanche de crticas. Disse John Wass, vice-presidente do Royal College of Physicians, que rene a elite dos mdicos ingleses: Algum j viu uma pessoa com 100 anos de idade e sobrepeso?. Qual seria, ento, a explicao adequada para justificar as vantagens do sobrepeso? A resposta  comezinha. Quem est acima do peso tende a procurar o especialista para emagrecer, diz Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas, de So Paulo. Com isso, h mais preveno e aumentam as chances de tratar outras doenas relacionadas  obesidade.
     O IMC  obtido pela diviso do peso pela altura ao quadrado. No se trata, por si s, de um medidor de sade preciso, por no diferenciar gordura e massa muscular. Um atleta, por exemplo, pode ter um IMC maior que 30 e mesmo assim ser saudvel.  fundamental considerar outras variveis, como presso arterial, nvel de acar no sangue, colesterol, triglicrides e circunferncia da cintura. O peso, enfim, no  tudo.
     Pelos atuais padres da Organizao Mundial de Sade, rigorosssimos, 49% da populao brasileira tem sobrepeso, e estaria apta a se encaixar nos vantajosos 6% a menos de riscos anotados pelo Jama.  um arco exageradamente amplo, que abraa tanto as pessoas que de fato namoram o risco do peso em excesso quanto aquelas evidentemente alheias ao perigo da morte em decorrncia da composio corporal  e que no deveriam ser includas na pesquisa, por terem boa sade e contaminarem o resultado.

A BALANA E A VIDA
A relao entre o peso de uma pessoa e sua mortalidade  os resultados foram obtidos a partir de 97 reputados levantamentos com quase 3 milhes de adultos.
IMC 18,6  24,9: PESO NORMAL
IMC 25  29,9: SOBREPESO  Risco de morte 6% menor (em relao ao de uma pessoa de peso normal)
IMC 30 ou mais: OBESIDADE  Risco de morte 18% maior (em relao ao de uma pessoa de peso normal)

NDICE DE MASSA CORPORAL
(mulher de 1,61 metro  Altura mdia da mulher brasileira)
Peso: at 48 Kg
IMC: at 18,5
Classificao: abaixo do peso

Peso: entre 49 kg e 64 kg
IMC: de 18,6 a 24,9
Classificao: peso normal

Peso: entre 65 kg e 77 kg
IMC: de 25 a 29,9
Classificao: sobrepeso

Peso: acima de 70 kg
IMC: 30 ou mais
Classificao: obesidade

COMO CLASSIFICAR O NDICE DE MASSA CORPORAL (IMC)
Peso dividido por altura X altura = IMC


